Há ideias tão estereotipadas, tão caricatas, que ilustram perfeitamente a conveniência de ideias opostas, que se tentam combater. Faz poucas semanas, fiquei sabendo que foi decisiva a participação das mulheres na vitória eleitoral de Zohran Mamdani em Nova Iorque, a ponto de algumas pessoas defenderem que as mulheres não deveriam votar. O vídeo do pastor conservador Dale Partridge é um exemplo claro de uma tentativa sintomática de combater a tendência a se importar com os outros.
Permitam que eu faça um resumo das suas ideias: as mulheres não deveriam votar porque desde que passaram a votar os EUA tem sofrido uma catástrofe moral. As mulheres tendem a buscar uma vida confortável, pacífica e a se importar com os outros, a ser sensível ao problema dos outros, mas as emoções e a sensibilidade que motivam tudo isso são um problema na esfera pública, na tomada de decisões necessárias para o país. O problema das mulheres o pastor denomina “empatia suicida”, uma empatia patologizada, e vista como fraqueza que precisa ser regulada e vigiada. Por serem mais sensíveis, as mulheres tendem a ser enganadas por homens maus, que sabem explorar a “fraqueza” de se importar com os outros. Enfim, para proteger as mulheres desses homens maus o pastor sugere que elas não deveriam votar, e chega até a citar estatísticas sobre traição para ilustrar o fato de que as mulheres estão vulneráveis a tais homens maus, que sabem instrumentalizar a sensibilidade feminina para seus propósitos escusos, políticos e sexuais (suponho que os homens maus nesse caso são os esquerdo-machos e os performatives males, como tem se discutido recentemente.).
Não sei o que parece mais insultante, a ideia de que as mulheres precisam que homens supostamente bons as protejam dos homens maus, ou a imagem das mulheres como seres estúpidos, ingenuamente influenciáveis e vulneráveis a homens ardilosos. Imaginar que as mulheres precisem da proteção dos homens é não ter dedicado cinco minutos para pensar sobre a vidas das mulheres. As mulheres não precisam que os homens as protejam, elas precisam que os homens deixem de tratá-las como alvo preferencial de sua violência, ou seja, elas precisam que os homens as vejam como elas são: seres inteligentes, autônomos, a quem devem respeito. A segunda ideia é ainda mais perniciosa e alimenta a tentativa de um transformar em fraqueza o que em verdade é uma força, um esforço para manter, reforçar e justificar o status quo, isto é, o estado de coisas atual no qual o egoísmo é a manifestação de força de pessoas poderosas.
Não é à toa que Elon Musk tem montado uma batalha contra a empatia. Em jogo nessa cruzada contra a empatia está não apenas o entendimento daquilo que é inteligência, mas, acima de tudo, o controle discursivo sobre as manifestações do poder e da força. Ser forte é ser egoísta! O capitalismo é uma forma de vida, não é meramente um sistema econômico, de tal sorte que ele precisa fomenta valores e ideias vinculadas à sua perpetuação, nesse caso, é preciso dizer, fomentar e justificar uma forma de egoísmo que transforme a sensibilidade às necessidades alheias em expressões de uma doença, em uma patologia atestada pelo dados estatísticos e os conceitos da nossa melhor ciência.
Francamente, o que Elon Musk poderia saber sobre força, sendo ele quem é? Nessa crítica à suposta fraqueza da civilização está a tentativa subliminar de fazer vigorar o ideal de força de homens fracos e patéticos.
O discurso de que os homens estão governados pela lógica, enquanto as mulheres são dirigidas pelas emoções é duplamente problemático. Primeiro, porque reflete uma clivagem entre razão e emoção que é tão velha quanto o tempo (distinção que está presente desde os gregos, como lembra Gérard Lebrun em O conceito de paixão). Segundo, porque a própria idealização da lógica é obsoleta, e reflete o que eu chamo de mitologia Spock, uma pesada metafísica científica — uma metafísica inconsciente de uma ciência supostamente sem metafísica. O problema da idealização da lógica na mitologia Spock é que ela não encara o que a filosofia do século XX fez com os projetos lógicos alimentados no final do século XIX e começo do século XX. Spoiler: não sobra nada deles.
Em resumo: é preciso transformar em patologia a sensibilidade às necessidades de outros seres humanos, de tal sorte que não seja mais visto como normal se importa e sentir-se afetado pelos outros. (Eu escrevi sobre isso no Manual de sobrevivência.) É preciso transformar em fraqueza e vulnerabilidade a força ligada ao feminino: seu histórico alinhamento a uma cultura do cuidado e da atenção, por oposição à cultura da competição e da guerra em vigor em nossas sociedades patriarcais. A quem interessa a vigência desses valores?
Ubuntu é uma filosofia africana profundamente alinhada à sensibilidade ao outro, e a razão é simples: eu sou porque nós somos.
PS. Que fique claro que a empatia não tem relação necessária com a ética da hiper-sensibilidade difundida por identitarista e pela cultura woke de maneira geral. A ética woke pode ser uma ética normativa (prescritiva), com tendências totalitárias e anti-intelectuais, e tudo que ela propõe como política é um patrulhamento por meio do qual, mediante intimidação, o respeito universal será posto em vigor. Isso só funciona na cabeça de quem tem tendências totalitárias, mas não é capaz de admitir.
Em 2025 eu assisti dois filmes que tem uma relação estreita com a ideia de empatia e com o vínculo político dessa ideia, com o sentido de comunidade e civilização.

O primeiro é Wild Robot, que entre mil outras coisas, discute a ideia de gentileza como “estratégia” de sobrevivência. Desde que assisti tenho muita vontade de escrever sobre o filme, mas me perco em um sem fim de detalhes. Recentemente eu vi Vampira humanista busca suicida, um precioso filme quebequense que trata precisamente da patologização da empatia numa sociedade de vampiros. Uma pérola que só a arte pode nos oferecer.
Em mais um episódio da série: como a ciência nos empobrece, um especialista foi chamado a avaliar a tese de Musk. A autoridade foi chamada a combater o argumento. É uma pena que ninguém se importe com autoridades, e que o argumento não seja tão importante quanto pensamos. (Mentira, não é uma pena!). Não sei o que me parece mais tormentoso, a fake news ou os facts checkers.


