Somos animais!

Somos animais, não há muito mais o que dizer. Somos macacos. Macacos metidos a besta, é verdade, mas ainda assim, macacos. Dentre as muitas coisas que se pode amar na internet está uma oferta quase inesgotável de conhecimento. Por exemplo, aqui você pode assistir sem dificuldades a uma playlist com 12 vídeos nos quais o paleontólogo Walter Neves explica um pouco sobre a macroevolução humana. Não é nada demais que uma Universidade publique vídeos de seus melhores pesquisadores no seu canal de Youtube. Em certo sentido isso é até banal, mas é uma banalidade que está entre nós há muito, muito pouco tempo. No início dos anos 80 ninguém tinha acesso a esse conhecimento que hoje a gente pode se dar ao luxo de considerar trivial.

Outra coisa, a formação de Walter Neves, diversificada como convém à sua área de estudo, só se sedimenta ao longo de muitas décadas de investigação. E ele se esforça para traduzir a complexidade de suas pesquisas em termos acessíveis até mesmo pra pessoas como eu, que não tem formação adequada para entender certos aspectos da biologia. Lembro claramente do gancho que me fisgou ao pensamento de Richard Feynman, foi a ideia de que quem não sabe explicar algo em termos simples e acessíveis não compreende verdadeiramente sobre o que fala. Por isso, eu louvo os que se empenham no uso da linguagem e isso significa um compromisso com a comunicação, mas também um compromisso com algo mais do que comunicação. São louváveis todos os que acreditam na inteligência das outras pessoas.

Mas antes que eu me perca falando de outras coisas, é melhor voltar ao que eu queria dizer. Somos animais. Macacos. Nas cidades deste mundo civilizado, que redimirá toda a humanidade de sua ignorância, o macaco virou símbolo do primitivo. Quando os civilizados querem ofender os Outros (essa categoria), eles lançam bananas contra atletas em partidas pelas quais pagam os olhos da cara. Ninguém deveria prestar muita atenção ao “pensamento” desses civilizados, aí não há nada de bom. Prestemos atenção aos pressupostos deste pensamento. Um ideal de pureza está presente nessa visão de mundo — e também uma identidade. O sonho dos que querem separar os homens entre si e manter a marra de uma identidade humana afastada da identidade animal é o sonho da pureza. O anseio de pureza quer incessantemente separar mais, segregar mais, formar grupos com membros cada vez mais iguais, mais puros. A pureza é o certificado da igualdade dos que se creem superiores. E este sonho é também o sonho de provar a objetividade de uma distinção conceitual; de justificar uma separação conceitual por meio da qual se pode marcar o que está dentro ou fora de uma extensão, de uma classe — sem vagueza. Por isso a eugenia, a frenologia, todas essas tentativas de provar cientificamente uma superioridade racial. Geralmente seus defensores não sabem do que falam quando sustentam a possibilidade de justificação, porque não entendem o complexo papel da justificação no pensamento científico nem os muitos problemas que ela enfrenta. A ciência está inteiramente contaminada pelas noções matemáticas de demonstração e prova, e isso alimenta as fantasias de justificação tipicamente científicas. Ainda que na matemática essas ideias tenham um uso tão preciso que não pode ser transposto a nenhuma disciplina das ciências naturais sem enormes ressalvas que não costumam ser sequer conhecidas, as fantasias crescem como erva daninha. Ciência é política e poder. E é porque muita gente acredita dogmaticamente nessa sandice que há tantos esforços para provar quadros de valores (como se fatos e valores fossem a mesma coisa), para justificar tais valores. Como se não tivéssemos que escolhê-los e como se eles fossem a expressão de uma necessidade natural (Naturnotwendigkeit, a expressão é do velho Wittgenstein) que todos lutam por descobrir usando a ciência. O que é uma necessidade natural? A ciência caminha para um realismo porque ela só consegue conceber a natureza como realidade a ser espelhada na linguagem. Não consegue conceber um mundo apresentado, pois tem fixação pelo modelo de representação. E por essa realidade anseiam tantos bons quanto maus cientistas*.

Mas isso não importa agora! Longe das fantasias de pureza dos que creem cegamente na definição, no conceito e na determinação, eu acredito na miscigenação, na mestiçagem, na antipureza. Não me ilude nenhum dos jogos em que se tenta provar e extrair consequência da pureza do pertencimento a classes superiores, nenhuma expressão desses jogos. Em minha cabeça, essa desconfiança prevalece em razão da presença constante da Filosofia e da Antropologia. Ela se deve à crença na antropologia e na etnologia, como únicas formas de reconhecer e identificar a objetividade sem se enfeitiçar (e se corromper) pelo subliminar poder político do realismo.

Se usarmos uma abordagem etnológica isso significa que estamos dizendo que a filosofia é uma etnologia? Não, isso só quer dizer que estamos tomando um certo distanciamento a fim de ver as coisas mais objetivamente.

Wittgenstein, cultura e valor

A perspectiva antropológica lança um olhar muito diferente à dita realidade. Não há pretensão de esgotar. Se a gente olha assim a experiência da mistura no Brasil, nem é preciso o background biológico de uma perspectiva que vê a variação genética como melhoramento, basta constatar os fatos da nossa história. Por exemplo, sem discutir o quanto de influência cabe a cada matriz formadora — sem discutir a importância da tradição filarmônica europeia na formação do chorinho, da bossa nova e, em certa medida, até do samba — já dá para constatar que em nossa cultura se misturaram elementos bem diversos para formar algo que é, no mínimo, muito interessante. E, no máximo, divino. Quero dizer, como força criativa. E tudo isso apesar da Madame!

O supremo Altamiro Carrilho executando o divino Pixinguinha

A essa altura, talvez seja uma batalha perdida tentar explicitar e nos reconectar ao tema dos animais. Eu sempre espero que as pessoas vejam (e entendam) para onde estou indo, mas é difícil mostrar as transições sem dizer muito, sem dizer demais. Nossos conceitos (a linguagem) tem um papel formador tão fundamental na constituição das lentes que usamos para ver o mundo/realidade que a briga para justificar o conceito de ser humano, ser animal, ser inteligente, ganha uma importância absolutamente insuspeita. E uma dimensão ética igualmente impactante. E é fácil notar, embora não seja simples explicar, como essa pretensa superioridade, que se observa na própria relação entre homens, contamina também nossa relação com os outros animais, com a natureza. (Não é preciso uma pandemia para que possamos notar esse efeito, embora nem mesmo ela seja capaz de nos fazer ver o que não queremos.) Diane Fossey, Jane Goodall, Pierre Clastres, Peter Winch, Lévi-Strauss e tantos outros se empenharam em nos mostrar o impacto da húbris humana.

Começou-se por cortar o homem da natureza e constituí-lo como um reino supremo. Supunha-se apagar desse modo seu caráter mais irrecusável, qual seja, ele é primeiro um ser vivo. E permanecendo cegos a essa propriedade comum, deixou-se o campo livre para todos os abusos. Nunca antes do termo destes últimos quatro séculos de sua história, o homem ocidental percebeu tão bem que, ao arrogar-se o direito de separar radicalmente a humanidade da animalidade, concedendo a uma tudo o que tirava da outra, abria um ciclo maldito. E que a mesma fronteira, constantemente empurrada, serviria para separar homens de outros homens, e reivindicar em prol de minorias cada vez mais restritas o privilégio de um humanismo, corrompido de nascença por ter feito do amor-próprio seu princípio e noção.

Pierre Lévi-strauss. “Jean-Jacques Rousseau, fundador das ciências do homem”. Antropologia Estrutural dois

A antropologia é a mais importante das ciências. É ainda uma aposta no logos, mas é de um tipo diferente. É meio vergonhoso — é verdade — ter que colocar as coisas dessa forma. Como se a(s) lógica(s), a matemática, a física, as rainhas do nosso coração científico, fossem desimportantes. Não é o caso, mas é também o caso. É e não é — e não digo mais. Meu apreço por elas é enorme, mas o que há de mais fraco na nossa alma se apossou do poder dessas ideias para nos escravizar ao medo e à vontade de controle que nos afastam de tudo e de todos. Não vejo como essa ânsia tecnológica nos encaminha de volta aos outros e ao reino ecológico. Por isso me sinto inclinado a lembrar de Lévi-Strauss e de todos os que fazem questão de sublinhar, somos animais. Somos macacos. Não podemos esquecer disso, de outro modo não aprenderemos a superar o desafio posto por uma sociedade dogmaticamente aferrada ao crescimento econômico ilimitado, num mundo de recursos naturais limitados. Sem respeitar os animais, sem aprender com eles bem como com as sociedades arcaicas, as sociedades tradicionais — não primitivas! —, não há como imaginar uma saída dessa cilada em que nos metemos.


O colapso do projeto de encontrar uma forma lógica universal — uma mesma forma de julgar e pensar — põe fim ao sonho da pureza no campo teórico, transforma a questão da formalidade numa mera questão técnica a ser explorada pelas diferentes lógicas, além de consolidar a pragmática e todas as vias que conduzem à antropologia, bem como à primatologia (como vias genéticas não meramente lógico-normativas). Mas há ainda outra perspectiva pela qual poderíamos encarar todo esse cenário e tenho muita vontade de um dia, quem sabe, abordar essa questão em vídeo. Trata-se de uma mudança de paradigma ainda não inteiramente consolidada e levada à cabo por Alan Turing. Quando Turing quase inocentemente, já na primeira página do seu Computing machinery and Inteligence, dispensa a definição e abraça a imitação (o comportamento) como critério de inteligência, ele reconstrói a realidade em outros termos. Essa questão, no entanto, é um universo à parte.

* A justificação é um dos temas mais interessantes discutidos por Karl Popper em sua Lógica da descoberta científica, especialmente o chamado trilema de Fries. Aqui está o pedaço do livro em que a questão é mais profundamente considerada.

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