Um dos conceitos mais importantes num mundo orientado à lógica e à matemática é o conceito de universalidade, isto é, a ideia de que em certas dimensões da linguagem e do conhecimento não há nada do lado fora, tudo está abarcado. Assim, uma das discussões mais interessantes em lógica é sobre o lado de fora, sobre a possibilidade de que exista um lado de fora incontornável. Admitir um lado de fora equivale a pôr limites à ambição da universalidade na filosofia, na ciência, na lógica e na matemática concretamente, e significa dizer que a universalidade não tem o papel que nós imaginávamos que poderia ter. E essa discussão nasce de uma perspectiva de Wittgenstein sobre as condições do sentido e da determinação da verdade das proposições.
Quando se acredita na universalidade precisamos ir em busca daquilo que o Tractatus Logico-Philosophicus (TLP) tentou alcançar: uma base sobre a qual assentar essa pretensão. Nesse sentido, o TLP busca a simplicidade, aquilo que é simples e fundamental.
Wittgenstein está preocupado com a determinação, e no modelo de Wittgenstein o que garante a determinação é a existência de uma dimensão lógica e ontológica irredutível, o simples. O simples é a substância do mundo, aquilo que faz com que o mundo seja algo passível de ser dito e ser dito claramente. Algo que é o mesmo pra todo mundo, onde toda a pluralidade acaba, e onde a universalidade constrói sua base e fundamento, posto que o simples cumpre o papel de dado.
A universalidade do simples garante a determinação do extrato fundamental da linguagem, de tal maneira que os desacordos sobre proposições mais complexas e não fundamentais — distantes das proposições elementares onde a complexidade é mínima e os nomes estão diretamente correspondidos às coisas (ao simples) — não interferem na dimensão fundamental da linguagem. A universalidade da base lógica e ontológica da linguagem, a substância do mundo, o simples entendido como o dado que garante a correspondência entre lógica e mundo, não se deixa afetar por nenhuma experiência do mundo, ao contrário, ele é condição do sentido de todo enunciado da linguagem sobre o mundo.
Com seu modelo, pode-se dizer que Wittgenstein tentava justificar a maior das pretensões do racionalismo, a pretensão fregeana de que a lógica fosse o árbitro no conflito de opiniões, a ponto de que a necessidade de calar sobre questões de estética, ética, não fosse senão o corolário da possibilidade de determinar, de dizer claramente tudo que pode ser dito sobre o mundo, e os limites da dizibilidade imposto pela necessidade de determinar o que se pode dizer claramente (eliminar a vagueza e a imprecisão).
Se você abandona o projeto da universalidade da lógica, o projeto que vai em busca da forma (e do formalismo), da generalidade das regras mais elementares do entendimento, o que resta é o desconcertante esboço do relativismo. Sem a pretensão de que, descarnada as proposições da linguagem natural, reste uma estrutura lógica atemporal e a-histórica, que regula as mudanças das camadas mais superiores do simbolismo desde uma perspectiva eterna e fundamental, toda a construção e o uso do simbolismo ficam submetidos a uma apreciação incontornavelmente política, histórica, antropológica, valorativa. Isso significa que não é possível justificar com fatos e verdades nossos quadros conceituais, e que outros podem ser tão interessantes e verdadeiros quanto os nossos, desde outra perspectiva. O perspectivismo é incontornável, e a universalidade é um projeto louvável, mas insustentável a partir da filosofia e da ciência do século XX. Há sempre um lado de fora, o que a ciência faz ao apostar todas as fichas na determinação é mostrar o quanto os cientistas estreitaram suas cabeças desde que a ciência nasceu, no século XIX, com Gauss, Humboldt e sua turminha.
Da inescapabilidade do lado de fora muita coisa pode ser dita, afinal, ele é o ponto de partida da pós-modernidade, desse convite a reinventar nossa relação com a verdade e o sentido (a ficção.)
PS. Newton e Galileu não eram cientistas. Aliás, Newton era um alquimista!
