Batman: vingança, justiça e instituições

B

No mesmo dia em que escrevi sobre máscaras, vi o Batman de Robert Pattinson — coincidência? Qualquer valor negativo associado a Pattinson por sua atuação na saga Crepúsculo já está há tempos esquecido e eu sou capaz de andar com uma foto de Pattinson na carteira — como dizia o Hermenauta — pelos filmes que ele fez depois. Cosmopolis, High Life, Map to the stars, The lighthouse, ainda não assisti Good time, mas li muita gente falando bem. É nesse contexto que cheguei a ver a sua atuação como Bruce Wayne, com a expectativa de ver mais um bom trabalho de um ator que eu gosto. E foi isso que aconteceu!

E não é fácil substituir Christian Bale, diga-se de passagem. A transição de Christian Bale a Robert Pattinson marca uma mudança de paradigma em relação ao personagem de Bruce Wayne. Bale interpretava um personagem capaz de representar um playboy, que sabia jogar e em alguma medida gostava de jogar o jogo em que era um playboy (não estava totalmente fora do seu ambiente nesse papel). O Bruce Wayne de Pattinson não é assim, ele é melancólico, depressivo, quase afásico, tem uma relação ambígua com a raiva e a violência, algo que se expressa já no modo como ele se denomina: — “Eu sou a vingança!”. Se expressa também na sua dificuldade de lidar verbalmente com os seus sentimentos, por consequência na sua relação com a catwoman de Zoë Kravitz. Bem, vamos por partes.

Que Batman se designe assim, “eu sou a vingança!”, significa que simbolicamente essa designação marca a sua posição relativamente à justiça, como se ele dissesse: “Não, não busco a justiça, eu pratico a vingança!”. E era isso o que ele era de fato: a vingança, a raiva, a violência e o prazer da violência. Numa das primeiras cenas do filme, Batman eletrocuta um sujeito enquanto o ergue pelo pescoço, e o eletrochoque dura um pouco mais do que seria decoroso durar, digamos assim. E quando Bruce tirou o máscara e voltou pra casa, ele fez um review do que havia gravado e da sua atuação na noite, ele se fixou precisamente nessa mesma cena. O Bruce Wayne de Pattinson é bastante particular e complexo, um voyeur com uma ligeira tendência ao sadismo e ao mórbido. O aspecto voyeur aparece em muitos momentos do filme, e é natural que seja assim pois o vigilante funcionalmente é um voyeur.

A maior peculiaridade do Bruce Wayne de Robert Pattison é que a sua máscara não oculta nada, ao contrário do que eu disse quando falei de máscaras. A maioria das máscaras esconde, mas outras permitem que algo se expresse, de sorte que sem essa máscara algo não se deixa ver. A máscara liberta porque anonimiza, nos afasta da nossa identidade e então estamos livres para agir como outros, cuja posição moral não assumiríamos sem ela. Pattinson expressa uma simpatia inconsciente, mas suficientemente matizada na sua atuação, pelo vilão de Paul Dano. (E que Deus abençoe o talento de Paul Dano, que puta ator!) E é quando se dá conta de que a sua vingança tinha uma dimensão sádica e puramente destrutiva que Bruce tenta reconstruir a sua relação com a justiça. É bonito o modo como o filme constrói e explicita essa transformação no simples gesto de alguém que estende a mão para que um outro se levante. Batman, a força animal e inconsciente que alimenta uma vingança anti-institucional, estende à mão à prefeita recém-eleita, e com isso marca a mudança de atitude de Batman e Bruce. E essa transformação é sobretudo psicológica, mais que política. O psicológico no filme é o elemento que define os rumos do ético e do político, é uma tomada de consciência e uma consequente mudança de atitude em relação às suas sombras que conduz à promessa de mudança apontada no final do filme. Promessa de mudança, mas com boas doses de continuidade, porque a presença das sombras e do elemento desestabilizador não pode ser eliminada, no melhor dos casos assimilada à egoicidade, à ipsidade.

Politicamente, o mero deixar de ser a vingança significa uma reconciliação com a institucionalidade por meio da qual enxergamos a justiça: lei, direito e estado. Pelo menos em princípio, Batman reconhece a legitimidade dos âmbitos de constituição, execução e manutenção da justiça — a despeito da sempre presente ênfase na corrupção do sistema legal de Gotham. É verdadeiramente interessante que a diferença entre a vingança e a justiça seja um mote usado para tratar simbolicamente um tema tão espinhoso quanto o caráter institucional da nossa compreensão de justiça. A institucionalidade é um dos temas que tenho imensa vontade de tratar por aqui, mas, ao mesmo tempo, enorme receio, pela radicalidade das minhas ideias.

De qualquer modo, embora o filme não seja para todos os públicos, Batman merece ser visto não apenas pela atuação de Robert Pattinson, Zoë Kravitz e Paul Dano, mas pela fotografia, pelos efeitos sonoros, trilha sonora (Nirvana combina muitíssimo com um ambiente melancólico), foi uma bela surpresa.

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