Coordenação ou confluência? Parte 2: a permeabilidade entre o individual e o coletivo

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Segundo texto de uma série (de três) sobre confluência, o primeiro texto discute principalmente a ideia de coordenação, a contraparte estritamente corporal disso que designo como confluência (espiritual).

Descobri recentemente que Alexandra Elbakyan (criadora e mantedora do Sci-Hub) pesquisa interfaces cérebro-maquina (brain-machine interface). Pesquisadores de diferentes áreas, até mesmo de filosofia, têm pensado a consciência e a coletividade a partir de um ponto de vista notoriamente científico, como técnica e tecnologia. Um dos mais antigos e respeitados pesquisadores de interfaces cérebro-máquina, Miguel Nicolelis fala de “Brainet”, a rede de cérebros. (Nicolelis, alguém que precisa fazer lembrar constantemente a uma opinião pública fascinada pelos gestos publicitários do profeta Elon Musk que suas pesquisas já iam nesse rumo muitos anos antes que o Midas do Vale do Silício tivesse investido seus dólares nessa área.) Há um claro vapor que se adensa ao redor de perspectivas onde coletividade e tecnologia se encontram. E é muito importante que essas perspectivas se multipliquem, pois dado que vivemos na Tecnosfera, quando apresentadas sob a forma de tecnologias elas tornam mais inteligível e imaginável o gigantesco efeito ético, político, terapêutico do que poderíamos chamar, talvez apressadamente, de primado perspectivo do coletivo. Esse é um primado tecnológico, que não supõe que se negue a importância da singularidade do indivíduo.

No entanto, eu preciso insistir, essa é, no melhor dos casos, uma boa metáfora. A conexão entre seres humanos vai mais além do âmbito tecnológico, não se reduz às promessas de controle e previsibilidade da tecnologia. Pode haver algo verdadeiramente irredutível ao tecnológico? Pode haver algo que não se deixa capturar pelas pretensões determinísticas da ciência e de suas ferramentas estocásticas, estatísticas, feitas para nos oferecer margem de ação mesmo quando estamos em terreno não determinístico?

A contribuição do espírito é a arbitrariedade, o acaso, não a determinação da regra. É a indeterminação da inteligência que a transforma num instrumento criador e, ao mesmo tempo, desestabilizador. Pois a regularidade encontra no espírito o agente inteligente e capaz tanto de instaurar um padrão, como também de derrogá-lo e destituí-lo. A inteligência cria padrões, regras, leis, normas, e também as revoga, substitui ou simplesmente abandona — temos total soberania sobre nossos conceitos, diria Quine. E é nesse espaço estreito, quase inexistente de tão exíguo, que o criador cria ao não seguir regras (ao não imitar), só aí pode ter lugar a espontaneidade do espírito.

Eu confesso que não sei ao certo explicar o significado de uma confluência, de um modo de ser em relação aos outros que não é determinado pelo treinamento e adestramento social. Esse é um modo espontâneo de estar, ainda que preciso o bastante para parecer uma espécie de coordenação e não mero acaso. É claro que posso falar longa e abstratamente sobre essa ideia, mas isso nem de longe explica o significado de uma experiência ainda inédita. A gente precisa de algo concreto, algo como um exemplo (a muleta de que fala Kant). Abandonar o controle e agir em rede, conectado aos outros, é uma imagem que só a imaginação pode materializar, e me falta o talento literário. Eu não posso contar uma história, mesmo que fictícia — ou seja, mesmo que a verdade não seja o eixo principal de sua constituição —, e assim apresentar o alcance dessa possibilidade em termos palpáveis (não abstratos). E talvez essa história ainda não tenha sido imaginada por nenhum ser humano; a literatura ainda nos deve isso. Mas a espontaneidade do espírito, a matéria-prima de que são feitas as redes cuja confluência ainda não podemos sequer imaginar, pode ser ilustrada e compreendida na literatura, no cinema, na arte, em uma infinidade de ocasiões como naquelas em que se apresenta a psicologia androide, o significado da experiência não lógica, mas psicológica, de uma inteligência programada e não adquirida. Ex Machina vai quase desavisadamente em busca do espontâneo, do que o filme chama analogamente de ato não-automático (usando Pollock como exemplo), um ato que não é nem automático (determinado) nem aleatório (arbitrário, random).

Cena de Ex Machina em que se discute a emancipação em relação ao automatismo necessária à constituição de uma IA capaz de passar num Turing Test.

Até hoje tudo que é atraente na ideia de liberdade tem se contraposto àquilo que em nós é maquinal, ou, dizendo de outro modo, gregário. Há algo em comum entre a máquina, o autômato, o androide e o animal: todos estão restritos ao reino da natureza e da necessidade. Todo ser cuja (vida || funcionamento) está inteiramente determinada pelas leis do acontecer natural tende, do ponto de vista individual, a ser considerado um escravo ou simplesmente um animal (que são modos moralmente carregados de aludir à heteronomia); no que diz respeito à dimensão coletiva das ações, a heteronomia se expressa como comportamentos gregários, como um agir como rebanho, manada etc. Embora a heteronomia seja justamente a expressão de uma determinação, da falta da capacidade de criar e inventar algo novo, — de tal modo que poderíamos dizer que os fatos naturais acontecem como se seguissem cega e necessariamente as instruções de um livro, sem poder se desviar dessas instruções —, curiosamente, a autonomia também tende a uma estabilização, à cristalização em leis, não naturais, mas artificiais, que normatizam o acontecer no reino da liberdade. Essa estabilização leva às instituições, num plano geral, e, numa perspectiva concreta e particularizada, ao exército, paradigma da coordenação, de onde a autonomia é expulsa pela necessidade prática de construir e manter uma cadeia de comando. Bem, mas nada disso verdadeiramente importa e eu me desvio de minha rota; o que importa é que a experiência coletiva do maquinal, ou do gregário, é frequentemente a experiência da manipulação, do agenciamento, da instrumentalização, a história constantemente repetida de agentes externos que, descobrindo leis e padrões na regularidade das ações coletivas, interferem na cadeia causal de modo a canalizá-la em prol dos seus interesses. Isso acontece com o gado de Bolsonaro (exemplo do gregário), mas acontece também nas redes sociais (exemplo do maquinal), no business model do Facebook (Cambridge Analytica), Google etc. (como não cansa de apontar Jaron Lanier, lembrando as técnicas de manipulação comportamental que estão por trás do vício das redes sociais — somos ou não somos dados?).

Há um modo de estar em relação aos outros que não se limita a nos sujeitar a manipulações e permitir que seja explorado o nosso lado maquinal e determinado?

Se tudo o que tivéssemos para responder a essa pergunta fosse a conjectura de que, se existe um “lado negativo” da psicologia de massa, deve também existir um “lado positivo”, teríamos nas mãos uma consideração imensamente razoável. Mas isso não é tudo o que nos resta. A conexão entre seres humanos não é nenhuma raridade, nenhuma tecnologia distante com a que sonhamos, mas um fenômeno há muito ordinário na vida social humana. Um fenômeno que se manifesta de muitas maneiras, de muitas formas, e convém escolher uma manifestação especial para ilustrá-la, como a amizade.

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