
Quando eu comecei a escrever a minha tese de doutorado , em 2013, eu ainda não tinha feito uma completa transição digital, ainda escrevia apontamentos e anotações a mão em cadernos de papel, apesar de ter escrito a tese inteira no computador. Aí acima estão as minhas anotações digitalizadas da leitura da Crítica da razão pura, de Immanuel Kant.
Depois disso eu passei a escrever minhas anotações em arquivos DOC (usando Libreoffice), e muito tardiamente fui pro Obsidian (aplicativo específico de controle de notas), passei aos arquivos em plain text, em formato Markdown. Os arquivos em texto puro não ficam obsoletos, não dependem de softwares que saibam interpretá-los, como os arquivos binários (imagina ter um arquivo gravado com informações de dados de sua família em DOCX e não ter acesso ao Microsoft Word, nem a nenhum programa que saiba ler o seu formato de arquivo?) Eles chamam isso de sistema future-proof! Quando a gente pensa tudo em termos de dados, o digital e a simplicidade do plain-text são indispensáveis. Leveza e simplicidade são valores que surpreendentemente parece saltar aos olhos num domínio onde é de se esperar que predominem a complexidade e a opulência. É precisamente por causa da complexidade que a simplicidade e a sobriedade se tornam tão importantes, na sociedade digital, e em nenhum lugar isso pode ser visto tão claramente quanto na computação, onde a abundância de dados torna a questão do gerenciamento do tamanho dos dados um fator essencial.
Depois de 2018 eu pouco li livros não digitais ou não digitalizados. A parte significativa, senão a maioria dos livros e artigos que usei para a tese eu consegui online, no Library Genesys e, às vezes, no Sci-hub, da incrível Alexandra Elbakyan. Depois de terminada a tese, eu basicamente só leio livros de literatura, e é muito fácil conseguir epubs na internet. Tudo isso não é nenhuma extravagância de nerd, mas apenas o hábito e a conveniência de ter seus dados digitalizados: cada comentário, cada anotação está registrada e pode ser buscada com uma busca em formato texto. Até os textos não originalmente digitais podem ser escaneados e texto em imagem (foto do texto) pode ser convertido em texto de fato, aplicando técnicas de OCR (Optical Character Recognition). Aqui está um fragmento grifado do livro escaneado de Pierre Clastres, A sociedade contra o estado, na qual eu apliquei OCR (ocrmypdf é uma biblioteca em Python que ajuda nesse trabalho):

É fácil não apenas grifar texto, mas também pesquisar usando somente aquilo que você realçou, recuperar o texto exato grifado. É muito fácil trabalhar assim! Fica divertido escrever uma tese, porque parece que todos os nossos pensamentos e notas estão ao alcance da mão, como se fosse um sistema atual. Por todas essas coisas que para mim são conveniências indispensáveis, eu pouco tenho lido livros não digitais. Mas deveria voltar a ler, porque o digital é um castelo de cartas, além de nos prender a um ritmo ansiogênico. O papel, o livro e o ritual da leitura nos amarra a um ritmo que precisamos recuperar, aquele da concentração, aquele que perdemos com os estímulos da sociedade digital.

Nesse mundo digital em que vivo na relação com meus livros e textos, meu sonho consumista é pagar a mensalidade do Readwise. Readwise é um serviço que nos permite importar anotações e fragmentos grifados de livros digitais em arquivos markdown e sincronizá-las com meus registros no Obsidian. É o paroxismo do controle e da administração, um belo sintoma, ou melhor dizendo, um sinal do tipo de mentalidade que vamos pouco a pouco sendo empurrados a possuir. Quando o que se tem é físico apenas no sentido de que é informação gravada em dispositivos eletrônicos de armazenamento (em local e/ou nas nuvens), quando nossos registros não têm a durabilidade do papel, passa então a ser importante fazer backups. Um incêndio pode acabar com uma biblioteca e destruir os registros de um pensamento armazenado em papel, mas um incêndio não é tão provável e preocupante quanto é possível e provável uma (falha || degradação)
em dispositivos eletrônicos. Fazer backup se torna uma necessidade dos seres digitais, ou seja, quando nossos principais dados e registros tornam-se digitais. Tornar-se um ser digital é passar ao novo paradigma civilizacional, o paradigma da sociedade digital, aquele no qual abandonamos o papel como suporte de armazenamento e adotamos os dispositivos eletrônicos como tecnologia principal de armazenamento. O digital é tão conveniente quanto frágil. E as implicações disso são imensas, especialmente na nossa sociabilidade (da sexualidade à política).
PS. Curioso que o papel não possa ser nem mesmo tecnologia secundária na sociedade digital! A dinamicidade do digital não tem como ter correspondência no papel, é outro ritmo e modo de circular. Mr Robot mostra isso de modo brilhante, falando de economias digitais, criptomoedas e sistemas de backup em papel.