Racionalistas sem razões: a cultura sem vitalidade de Ortega y Gasset

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Traduzi esse pequeno fragmento de um ensaio de Ortega y Gasset chamado El doble imperativo. É uma crítica preciosa e precisa à falta de vitalidade das ideias e práticas daqueles que apenas defendem cegamente o que foram ensinados (adestrados) a acreditar (mesmo que seja a razão esse artigo de fé ou, neste caso, a democracia). É uma observação que faz coro às críticas de Feyerabend aos cientistas adestrados. E como não poderia deixar de ser, vejo na quase oposição entre vida e cultura, algo semelhante à oposição entre prática e regra, em Wittgenstein. Isto é, a prática dá sentido às regras, às normas, às leis, tal como a vida dá ocasião à cultura. Uma regra que deixa de ser aplicada deixa de ter sentido — as regras gramaticais das línguas mortas ilustram bem este caso, mas o exemplo que eu mais gosto é a ideia da Lei pra inglês ver: uma lei sem vitalidade, sem força coerciva, porque nunca praticada. Do mesmo modo, num ambiente objetificado, que cristaliza as suas leis e normas e faz com que os homens sirvam às leis, e não o contrário, a cultura perde sua vitalidade, sua espontaneidade, e sua capacidade de responder aos problemas da nossa vida atual. E o conservadorismo grassa, por medo da instabilidade, da mudança.

As gerações inventoras do positivismo e do racionalismo consideraram amplamente, como coisa de importância vital para elas, as questões que esses sistemas agitam, e dessa enérgica colaboração íntima extraíram seus princípios de cultura. Do mesmo modo, as ideias liberais e democráticas nasceram do vivo contato com os problemas radicais da sociedade. Hoje quase ninguém trabalha assim. O trabalho característico do presente é o naturalismo que jura pelo positivismo, sem se haver dado ao trabalho de reconsiderar o tema que aquele formula; é o democrata que nunca pôs em questão a verdade do dogma democrático. Daí resulta a burlesca contradição de que a cultura europeia atual, ao tempo em que pretende ser a única racional, a única fundada em razões, já não é vivida, sentida por sua racionalidade, mas adotada misticamente. O personagem de Pío Baroja, que crê na democracia como se crê na Virgem de Pilar, é, junto com seu precursor, o farmacêutico Homais, representante titular da atualidade. (…) O tradicionalista está de acordo consigo mesmo. Crê nessas coisas místicas por motivos místicos. A todo momento pode aceitar o combate sem encontrar dentro de si vacilações nem reservas. Ao contrário, se alguém crê no racionalismo como se crê na Virgem de Pilar, significa que deixou, em seu fundo orgânico, de crer no racionalismo. Por inércia mental, por hábito, por superstição — em definitivo, por tradicionalismo — segue aderindo às velhas teses racionais, que já distantes da razão criadora, se enferrujaram, se engessaram (hieratizado) e se bizantinizaram.

ORTEGA Y GASSET, El tema de nuestro tiempo

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