“O mundo não é um conjunto de fatos”. Como explicar isso? Como explicar uma frase tão simples, de tal modo que qualquer um possa ver o significado dela? Especialmente o impacto que ela deveria ter no modo como vemos a ciência, o conhecimento que a ciência produz, e o modo como enxergamos a própria ética. Nós vivemos numa sociedade regida pela ideia de que o mundo é um conjunto de fatos, um momento numa longa cadeia de causas e efeitos que se estende até o início dos tempos, uma cadeia de acontecimentos determinada por leis naturais. Não por outra razão algumas das melhores mentes científicas estão empenhadas em falsear a liberdade (free will) como se essa ideia afirmasse algo incompatível com a ideia de determinação, como se a free will fosse um erro, uma falsidade, mais uma ilusão desmascarada pela ciência. O sentido da ideia de free-will não depende do valor de verdade que os cientistas atribuem a essa ideia. Nenhuma vontade é livre, no sentido de sem restrições externas. Se liberdade fosse só isso, seria muito fácil “provar” sua falsidade. Assim Kant escreve num livro sobre Filosofia da História, “A ideia de uma história universal sob um ponto de vista cosmopolita”:

Independientemente del tipo de concepto que uno pueda formarse con miras metafísicas acerca de la libertad de la voluntad, las manifestaciones fenoménicas de esta, las acciones humanas, se hallan determinadas conforme a leyes universales de la Naturaleza, al igual que cualquier otro acontecimiento natural.

Immanuel Kant, Ideas para una historia universal en clave cosmopolita

A liberdade é o sentido que atribuímos à compreensão de que o mundo é muito mais do que causas e efeitos, muito mais que a determinação causal ou a necessidade lógica, muito mais que a pretensão de conhecer e determinar, e universalizar o conhecimento a partir do conhecimento de seus constituintes e as leis que os controlam. A liberdade é a compreensão de que o mundo se cria ao agir e reagir a ele, numa Praxis, não as leis estáticas e eternas com que pensamos decifrá-lo. Na filosofia de Kant esse é o reino da liberdade, domínio moral, por oposição ao reino da natureza, onde domina a ciência e o conhecimento (onde reina a “necessidade” de leis de percepção dos fenômenos e também leis do entendimento). Agora, se você acha que o mundo é pura causalidade, e que tudo, até o sentido de nossas palavras, é determinado epistemicamente mediante leis e normas com as quais podemos determinar os acontecimentos, para prever, antecipar e influir, você está a fim de controle, e você tem medo de perder o controle. O controle é uma ilusão, e ele molda e determina um modelo claro e inescapável de força e poder: o poder de quem pode controlar.

Num mundo onde tudo que acontece está determinado, não pode haver fatores externos não previstos interferindo no sistema. Num mundo onde o acontecer está determinado a mera ideia de liberdade parecesse não mais que um fantasma, a manifestação de medo de ser máquina, programável e manipulável: Fear of knowledge, diria Paul Boghossian contra o relativismo e o construtivismo. É preciso respeitar essa posição, porque ela é a predominante na Tecnosfera, apesar de certamente interessar a Boghossian ver o relativismo como uma ortodoxia no mundo acadêmico, contra a qual ele heroicamente luta. E é imprescindível combatê-la com todas as forças, porque ela quer nos empobrecer com a promessa de nos colocar no controle do mundo e do acontecer. Essa é a ideologia dos Tecno-idiotas que mandam no mundo e querem substituir a política pela tecnologia (sabe-se lá como).

Você consegue ver a beleza num mero script, na pura sintaxe? Porque há beleza, eu garanto, embora seja difícil mostrar. A beleza não se explica!

Voltamos assim à mesma pergunta: como explicar, como explicar que o mundo é muito mais que um conjunto de fatos? Mesmo as leis mais gerais e universais das ciências e da lógica (ou melhor, das lógicas), mesmo aquelas que regem linguagens formais, são históricas, mutáveis.. daqui a 10 anos ou 2000 mil anos podem ser diferentes. O mundo não é um conjunto de verdades, o mundo é simbólico e qualquer tentativa de transformar o inevitável simbolismo do mundo (ou a inevitabilidade da semântica, para usar a expressão preciosa de Hintikka) numa totalidade determinável e cognoscível está fadada a empobrecê-lo, e a vender a ilusão gerada pelo empobrecimento como controle, riqueza e poder do conhecimento. O sentido escapa a toda pretensão epistêmica, assim como inevitavelmente vemos beleza até no código, na pura sintaxe de um script escrito para interpretadores de comandos para ZSH ou Python.

「独身者は全員未婚だ」。日本語を習得した者、あるいは日本語から翻訳する方法を知っている者だけが、文が真か偽かを判断できる。たとえそれがトートロジーであっても。意味(Bedeutung)は、真偽の言語ゲームの条件である。

A liberdade é um conceito, apenas um conceito — que como outros conceitos como o conceito de “dois”, de “número”, ou o conceito de “mulher”, ou de “família”, e não se reduz a nenhuma verdade do mundo, não é nenhum fato do mundo, nenhuma objetividade, não é uma mera extensão. São lentes históricas com as quais vemos o mundo. São meios (simbólicos) com o quais criamos coisas no mundo, ou melhor, apresentamos o mundo, como lembrava Giannotti.

Mas como explicar isso, como explicar que o mundo é mais do que fatos? Parece impossível!

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