É fascinante observar um charlatão aplicando um golpe, enganando! Nesse quesito, Donald Trump é fascinante. Topei por acaso com o trecho dessa entrevista que ele deu em 1987, para Pat Buchanan. O entrevistador pergunta por seus autores favoritos, e ele entra no modo vendedor de humos, como dizem os espanhóis, e começa seu golpe. Ele está claramente se fazendo passar por alguém inteligente, e o paradigma de inteligência que o entrevistador empregava era: “quem você lê?” — Diga-me quem são seus autores favoritos e eu te direi quão inteligente você é.
Trump mentiu sobre Tom Wolfe, mentiu sobre o hábito de ler — que ele claramente não tem, como também não tem seu pupilo Bolsonaro —, e o entrevistador estava tão preocupado em fazer seu próprio comentário sobre a obra do escritor, que mal notou a contradição em que se meteu Trump. Foi desatenção mesmo ou o entrevistador foi simplesmente ingênuo e comeu o que Trump lhe serviu sem questionar?
A maior força de Donald Trump consiste precisamente nessa confiança que ele tem de que pode levar todo mundo a pensar sobre ele o que ele mesmo pensa de si. E acredite, Donald Trump acha que é o sujeito mais inteligente e esperto do mundo. Sua capacidade para fingir é, inegavelmente, uma psicopatia. Não acredito que ele seja capaz de sentir nada por outro ser humano. E ele não é um bom ator, mas sua capacidade de convencimento vem dessa crença natural e inquestionável que ele tem de que pode manipular todo mundo, e que todos os outros seres humanos são máquinas que podem ser instrumentalizadas a serviço de seus interesses. A dramaturgia e a psicopatia tem esse aspecto comum, ambas produzem bons fingidores e imitadores, mas enquanto uma é a expressão mais clara de criação e da inteligência, a outra representa algo que nós nem sequer podemos classificar como maldade. Um psicopata não é alguém mau, ele é um ser humano que, por sua condição, não pode nem sequer entender o sentido dessa distinção que para todos é tão central, a distinção entre o bem e o mal.
De todas as formas de fingimento, fingir inteligência talvez seja a mais comum.
Sobre o tema dos sentimentos (e a falta deles) de psicopatas, nada mais precioso que o filme Thoroughbreds. Não é um filme pra todo mundo, mas é muito bem feito e bem interpretado e, sobretudo, é sobre os efeitos não-patológicos da psicopatia, se é que isso existe. Ela é mais comum do que pensamos!
Donald Trump não importa, mas ele consegue se impor como tema de discussão em todo mundo. Tanta gente é quase obrigada a prestar atenção a um sujeito que bem poderia ser um personagem de The Office. O que nós podemos dizer de uma sociedade que coloca um psicopata numa posição de tremendo poder como a presidente dos EUA?
