
Os adolescentes querem formar tribos, o que significa reforçar o laço com um grupo selecionado de pessoas e, de modo muito importante, excluir e deixar do lado de fora outras pessoas, o resto. Cada um na sua margem do rio. Assim se constrói um espaço de pertencimento e comunidade.
Entre muitas outras coisas, isso dá lugar ao que eu chamo de pseudo-intimidade ostentatória, isto é, atos de exclusão encenados publicamente no teatro da representação cotidiana: atos de ostentação de uma cumplicidade intimidade que perfazem uma cena pública, performance e teatro para os outros. Por exemplo: piadas internas. Piadas internas são momentos nos quais alguém expõe a um público uma mensagem cifrada e faz saber à plateia que só duas pessoas compartem a chave privada necessária para decifrá-la. Assim fica ostentada a relação entre elas como coisa da qual os outros não participam, embora possa testemunhar essa “intimidade” e assim alimentar um capital simbólico associado a ela.

Essa vontade de excluir como meio de reforçar laços internos funciona na mesma lógica do nacionalismo, do fascismo, enfim, de qualquer fanática adesão identitária, ela precisa desse Outro que Freud identifica no narcisismo de pequenas diferenças e que eu recupero volta e meia:
Sempre é possível ligar um grande número de pessoas pelo amor, desde que restem outras para que se exteriorize a agressividade.
Freud, Mal-estar na civilização
A adolescência, como a infância, é uma invenção do século XX, da consolidação do direito e das instituições nos estados nacionais. O produto de uma “civilização” que começou com o trabalho infantil da revolução industrial.
Todo esse arrudeio para dizer algo simples: a adolescência é um instrumento decisivo na consolidação de uma mentalidade e de uma ideologia não-universal, tendente ao individualismo e às armadilhas do identitarismo (como manifestação comum do narcisismo de pequenas diferenças). A adolescência tende a sabotar o apelo de qualquer sentimento universal, ela é uma tecnologia (dependente do direito, mas também da biologia e da medicina) que alimenta a exclusão, a formação de grupos exteriores excluídos e grupos internos de onde seus membros retiram seu frágil sentido de pertencimento. A adolescência é uma tecnologia que trabalha no sentido contrário de tudo aquilo que representa a música Los Hermanos, de Atahualpa Yupanqui, de todo o sentimento de universalidade que quer albergar a todos, sem deixar excluídos.
