O canto das sereias

O

Conhecimento, verdade e sentido

Há pessoas que se perguntam se algum dia a ciência responderá a todas as suas questões, a todos os seus problemas, e decifrará inteiramente o que não sabemos (o desconhecido), e há pessoas como Ludwig Wittgenstein, que pensava: — se tudo que a ciência se pergunta puder um dia ser respondido ainda assim sentiríamos que o mais importante ficou de fora. Esse é o sentido da distinção entre fato e valor, isto é, da consideração de que a ciência só lida com fatos, com coisas que não tem valor nem importância em si mesmas.

Sentimos que, mesmo que todas as questões científicas possíveis tenham obtido resposta, nossos problemas de vida não terão sido sequer tocados. É certo que não restará, nesse caso, mais nenhuma questão; e a resposta é precisamente essa.

Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus, 6.52

Essa consideração dá uma nova perspectiva a tudo que não é ciência, simplesmente porque nem tudo que importa é relativo ao conhecimento. Em realidade, nada do que importa se reduz ao conhecimento, embora o conhecimento possa ser útil na busca daquilo que importa. Aliás, o problema do mundo é que a ciência não podem nos dizer o que fazer, mas nós apostamos todas as nossas fichas nessa ilusão ((Tecnosfera e Tecnocracia)).

Poucas verdades resistem ao tempo, porque embora os cientistas se iludam crendo que o mundo é como um livro cujas leis fundamentais e inexoráveis a ciência desvela, a ciência é sempre histórica e se parece mais ao Livro de areia, de Borges. O sentido, no entanto, perdura. Vejam, por exemplo, a imagem de Ulysses atado ao mastro (imagem que me fascina, mesmo que eu nunca tenha lido a Odisseia). O que pode nos ensinar essa imagem? Certamente nada, num sentido objetivo, e, no entanto, ela atravessa os séculos como se estivesse entalhada em nossa memória coletiva, como um meme, no sentido técnico do termo. Ela evoca o sentido do desejo de deixar-se enfeitiçar, de uma escolha que elege a fruição do feitiço, ainda que tome precauções para evitar agir como um enfeitiçado. O canto das sereias não é uma experiência da qual devemos prescindir e essa ideia parece misteriosamente conectada ao simbolismo da nossa própria vida.

Ulysses atado ao mastro
Ulysses atado ao mastro enquanto escuta o canto das sereias

O aprendizado, num sentido amplo e não tem técnico, não é uma vivência objetiva e com frequência reverbera no tempo, enquanto amealha elementos que se acumulam para, quem sabe um dia, contar-nos algo importante e indispensável.

Quando nos damos conta de que o mundo é muito, muito mais do que o conhecimento, todas as experiências e especialmente a experiência da arte ganham novas cores, porque nunca se sabe onde pode estar a lição que define o sentido da nossa vida e de nossas ações.

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