Melhoradores da filosofia

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Foi no rabugento Schopenhauer que eu encontrei essa expressão tão divertida, “melhoradores da filosofia”. Parece surpreendente que haja humor e alegria num pessimista, mas não é.

A filosofia não é uma ciência! Como explicar para alguém o significado dessa afirmação aparentemente simples, ou melhor, como fazê-la entender? Com a linguagem a gente pode explicar, mas nem sempre pode fazer entender, no sentido de constranger um entendimento por meio de palavras. A linguagem não é o cálculo, por mais que acreditemos no argumento (e na lógica). Por mais que acreditemos na objetividade da lógica, a arbitrariedade não pode ser abolida dos sistemas simbólicos, a vontade (a psicologia) sempre volta como elemento não apenas indissociável (as distintas lógicas podem ser entendidas como dissociações técnicas), mas com uma importância que não gostaríamos de admitir (veja, por exemplo, o lugar do ilógico irracional em Nietzsche).

Se você se encontra perplexo tentando convencer alguém de algo sem ser capaz de sair do lugar, diga a si mesmo que é a vontade e não o intelecto o que você está enfrentando.

Wittgenstein, 2005, p. 300

Talvez a gente possa tentar fazê-la entender o significado dessa frase não como uma definição rigorosa do que é filosofia e do que é ciência, mas de outro jeito, com uma analogia, que é um modo de exemplificar e tornar concreto. Dizendo assim: a filosofia não precisa de upgrade, ou de update! Talvez a mera associação aos verbos ligados à atualização de software possa nos fazer lembrar dessa necessidade tão cotidiana para nós, seres tecnológicos: a necessidade de substituir algo obsoleto por uma coisa nova. Todo dia há melhoramentos nos códigos das nossas amadas aplicações, do Instagram, do Twitter, às vezes há atualizações até nos próprios sistemas que rodam essas aplicações, nos navegadores, nos sistema operacionais, no Android, no Windows (a Microsoft lançou o Windows 11). No mundo do desenvolvimento de software e hardware algo está sempre envelhecendo e se tornando imprestável. Nesse sentido, esse universo tão heterogêneo, que abarca de desenvolvedores de software a usuários finais, nos permite extrair duas lições valiosas. A primeira é a de nos fazer perceber o modo como a investigação científica está umbilicalmente ligada à economia, ou seja, assim lembramos que os cientistas estão mergulhados em muito dinheiro e prestígio (nem todos, claro). A segunda é a de lembrar do dogma da Tecnosfera: o dogma do progresso e do desenvolvimento. A coisa mais difícil de ver, dentro de uma sociedade onde a técnica tem um papel tão vital, é o significado de algo que não segue a lógica do desenvolvimento, do progresso, do melhoramento, do que leva ao esquecimento do que já não é atual.

A filosofia, infelizmente, quer ser ciência. Isso se mostra em toda parte e até nas coisas mais simples, como na presença e/ou predomínio de um sistema de citação. Não é incomum em filosofia que (se exija || se exiba) o sistema de citação autor-data como sistema de chamadas em artigos e livros, sistema que privilegia a data de publicação de preferência ao título do livro na chamada. Por que isso? Porque nas ciências exatas (nas hard sciences) a atualidade das referências é central, as coisas envelhecem rapidamente e se tornam obsoletas! Feyerabend já dizia que os cientistas podem ser tão bem adestrados quanto qualquer outro animal, e o mesmo se pode dizer dos filósofos. Vejamos um comentário de Wittgenstein (1958) a respeito de algo que atravessa esse tema:

Nossa ânsia pela generalidade tem outra fonte principal: nossa preocupação com o método da ciência. Eu me refiro ao método de reduzir a explicação dos fenômenos naturais ao menor número possível de primitivas leis naturais; e, em matemática, de unificar o tratamento de diferentes tópicos por meio de uma generalização. Os filósofos veem constantemente o método da ciência diante de seus olhos e são irresistivelmente tentados a perguntar e responder perguntas da maneira que a ciência faz. Esta tendência é a verdadeira fonte da metafísica e leva o filósofo a escuridão completa.

Wittgenstein, 1958, p. 18 (tradução minha, ou melhor, do Google — de nós dois, vamos!)

É claro que a física de Aristóteles não pode ser vista como uma física atual, ainda que a vejamos com bons olhos. Mas e a filosofia de Aristóteles? E sua ética? Podemos dizer que ela é atual? Ou melhor, deveríamos dizer isso? Já não somos tantos os aristotélicos quanto os que usavam a expressão magister dixit, mas ainda somos muitos. Para que não pensem que admiro autoridades, é preciso dizer que o respeito a Aristóteles não é um respeito a sua autoridade, é um respeito a sua inteligência, é uma admiração afetuosa pela complexidade e força do seu pensamento como expressão da inteligência humana. Por mais benéfica que seja a lógica (financeira) da pesquisa científica que nos afasta das inteligências do passado, por ocupação ou preocupação pragmática, ela nos faz perder algo imensamente valioso, ainda que quase invisível. Por exemplo, algo se perde quando deixamos de ser aristotélicos. Aristóteles não se resume àquilo que dizemos ao afirmar o que existe de outdated em seu pensamento, ele é muito mais do que isso. Ele é também esse lado de fora perdido pela incapacidade de pensá-lo senão como coisa não atual.

E, na verdade, a filosofia é esse lado de fora invisível, que ninguém sabe que existe, ou admite, ou sequer vê, nem mesmo os filósofos; esse mundo externo ao mundo da inovação e desenvolvimento de uma ciência atavicamente capitalista; é isso que pode escapar ao progresso, e que sabe há milênios usar palavras e conceitos sem estar necessariamente preso à marcha inexorável do desenvolvimento e que, por isso mesmo, pode criticar o desenvolvimento e falar complexamente sobre a simplicidade.

Não se engane, essa é só mais uma queixa. (Um dia, quem sabe, elas se esgotam, e eu poderei então escrever textos que não soam meras queixas). A queixa de que a proposição “a filosofia não é uma ciência” já não tem significado. As pessoas não apenas pensam e agem como se isso fossem falso, elas nem sequer entendem o que significa afirmar essa proposição. Elas talvez possam explicar mecanicamente o pensamento de Wittgenstein, mas conseguiriam pensar como ele? Não! Pensam, argumentam e escrevem como quem faz ciência. O que a filosofia precisa mesmo é ser filosófica, ser aquele único espaço onde podemos ver o que é invisível, aquilo que, estando diante dos nossos olhos, não podemos enxergar.

O poder ilustrativo não-representativo do meme!

É tão difícil defender a filosofia sem parecer conservador, sem se sentir sem escolhas, sendo obrigado a aceitar a possibilidade de ser prontamente encaixado em algum lugar no espectro entre o progressista e o conservador; ou de ser visto como uma espécie de corporativista. Talvez por isso me pareça vergonhoso defendê-la. Mas é um pesadelo ver repetir-se na filosofia o que virou regra na ciência, o predomínio dos melhoradores e dos puzzle solvers, pois a filosofia tem uma função essencialmente ética/política, naquele sentido de Aristóteles.


Referências

Wittgenstein.L. (1958) The blue and brown books, Basil Blackwell, New York.
Wittgenstein.L. (2005) The Big Typescript., Blackwell Publishing, Oxford.

Que merda esse sistema, não? Você só sabe o título do livro do final. Mas é Harvard, quem vai dizer alguma coisa, não é mesmo?

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