O dever do gozo

O

Minha querida amiga Moni indicou um texto do Zizek: O superego pós-moderno. Não é uma peça exatamente fácil, ou clara, (aliás, como convém a um bom intelectual de extração lacaniana) mas há momentos de muita lucidez e formulações cortantes que ecoam um certo modo de mobilizar a psicanálise muito semelhante aos usos que se faz dela na Escola da Frankfurt. Recortei duas passagens que abordam o mesmo tema, destacadas do contexto, mas ainda sim de extremo interesse:

Esse paradoxo ou inversão é o próprio tema da psicanálise: a psicanálise não lida com o pai autoritário que proibe o gozo, mas com o pai obsceno que o impõe como obrigação e, com isso, torna você frígido ou impotente. (…) há o paradoxo necessariamente inverso pelo qual o prazer, numa sociedade supostamente permissiva, se transforma em dever. Os sujeitos se sentem na obrigação de se divertir, de “curtir a vida”, como se isso fosse uma espécie de dever, e, consequentemente, se sentem culpados quando não são felizes. O superego controla a zona na qual esses dois opostos se sobrepõem — na qual a ordem de sentir prazer em cumprir seu dever coincide com o dever de sentir prazer.

9 comentários

  • Leo, neste texto ele usa a imagem de um "pai obsceno". Em outros, a mesma idéia da imposição do gozo é pensada sob a imagem de um "super-ego materno".

    Gostei da passagem selecionada! Na verdade, acho que ele está propondo uma revisão da ortodoxia psicanalítica.

    bjo

  • Sim, de fato parece uma revisão, embora a mesma estrutura se conserve.. o dever e a culpa pela não realização do dever.

    O pai obsceno é apenas uma consequência dessa alteração: o dever não é mais a sujeição do prazer à ordem da razão (princípio de realidade), mas a obrigação de transpor os muros da antiga prisão, de fruir da liberdade. No fundo, a mesma estrutura se conserva!

  • Maravilhoso post, Plant. Absurdamente oportuno.. para este tempo, este mundo, sobretudo: para mim.
    Como é bom ter um amigo como você: me faz ter outro gozo para além de todo dever: ver o mundo 'sub speciae eternitatis'.

    :*

  • Cemitério high-tech dos ideais do projeto iluminista da modernidade, a contemporaneidade contempla o imediatismo prazeroso com os quais os sujeitos alimentam o vazio existencial. Rompimento com as tradições seculares e com os discursos que teoricamente davam conta do universo “real”, convivem os elementos dispersos do classicismo, da modernidade e da pós-modernidade misturados na geléia geral da contemporaneidade. Sem passado – aliás, também sem presente ou futuro – a subjetividade é lançada numa temporalidade virtual. História, temporalidade e projetos existenciais desaparecem enquanto instrumentos de mediação simbólica. Resta disso um imediatismo e urgência crônica na obtenção de prazer, corporificada por subjetividades que possam sustentar as exigências de exaltação do eu produzidas pela sociedade do espetáculo. Portanto, não é de se estranhar que o sujeito contemporâneo seja suscetível aos chamados distúrbios narcisistas e à depressão, como saída a esse estado de coisas. Aliás, quanto à depressão, o “ser” deprimido talvez seja hoje uma condição “normal”.

    – Helena Watson Manhães de Andrade

Por Leonardo Bernardes

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