Talvez vocês não saibam, mas eu escrevi minha monografia sobre a interpretação e o uso que Marcuse fez de certas ideias freudianas. Marcuse se apossa da noção de repressão e dá voz e consequência à ideia de que uma espécie de repressão incide sobre sobre as energias libidinais, fazendo-as funcionar em favor dos dispositivos culturais. A contribuição de Marcuse consiste em destacar uma ruptura...
A redenção consumista, via consumismo
Digam o que quiserem os detratores, mas Zizek é certamente uma das poucas figuras, dos poucos pensadores da atualidade capazes de refletir sobre as questões mais candentes dos nossos dias mobilizando as chaves críticas da tradição, não sem algum fôlego e profundidade. No vídeo abaixo ele examina, no seu estilo profuso e um tanto confuso, a maneira pela qual o capitalismo cultural se legitima...
Reflexões sobre o kit anti-homofobia
O livro A vontade de saber, de Foucault, oferece alguns elementos para pensar o emprego da via pedagógica direta como recurso no combate à homofobia. Antes, infelizmente, é preciso fazer aquele détour costumeiro — e, frequentemente, trampolim para a homofobia propriamente dita — que consiste em dizer que meu propósito é tão somente refletir sobre as medidas aventadas. Apoio...
Normas, normatividade e práticas
O recente episódio envolvendo livro aprovado pelo MEC ilustra um caso curioso. Zelosos defensores das normas manifestam claro desconhecimento sobre a relação entre normas e práticas. O que me lembrou um comentário de Wittgenstein: It seems, whatever the circumstances I always know whether to apply the word or not. It seems, at first it was a move in a special game but then it becomes independent...
A que se reduziu o sujeito na sociedade do espetáculo
Li ontem um artigo em que Maria Rita Kehl articula Adorno, Lacan e Débord em função da análise do sujeito na sociedade do espetáculo — expressão do Débord. O texto é breve, mas instingante. Em linhas gerais, o que ela diz é que o sujeito (que nem se realizou enquanto tal, para Adorno) se reduziu ao papel de receptáculo de uma subjetividade pré-fabricada (subjetividade reificada) e que, na...
O dever do gozo
Minha querida amiga Moni indicou um texto do Zizek: O superego pós-moderno. Não é uma peça exatamente fácil, ou clara, (aliás, como convém a um bom intelectual de extração lacaniana) mas há momentos de muita lucidez e formulações cortantes que ecoam um certo modo de mobilizar a psicanálise muito semelhante aos usos que se faz dela na Escola da Frankfurt. Recortei duas passagens que abordam o...
Onde está o sexo?
Eu estava assistindo um dos muitos clipes produzidos pela indústria cultural americana, cheio de mulheres, sensualidade e danças eróticas, quando lembrei de uma preciosa frase de Barthes, citada por Baudrillard no proscrito Esquecer Foucault (Rocco, 1984): Barthes dizia sobre o Japão: “Ali, a sexualidade está no sexo e em nenhum outro lugar. Nos Estados Unidos, a sexualidade está em toda...
A dialética eurística de Schopenhauer
Schopenhauer escreveu uma dialética eurística, ou melhor, deixou inacabado esse projeto. Escreveu mas não o publicou por razões incertas. A arte de ter razão compila 38 estratagemas através dos quais se pode obter o assentimento do público ou do interlocutor sem ter razão. O Wikipedia cataloga e ilustra os artifícios. Num artigo sobre o livro, intitulado O novíssimo Organon: a lógica e a...
Amor ao extremo
André Gorz e Dorine, sua esposa. Terminei de ler o livro Carta a D. de André Gorz. A mulher de Gorz é a figura central do livro. Toda a sua história intelectual é reinterpretada à luz da influência decisiva de Dorine em sua vida e em sua formação. O livro confirma uma impressão recorrente: sempre que eu leio a história de vida de intelectuais franceses, tenho a impressão de que nos falta um tipo...
Deleuze: a vontade de potência e os fracos
Num livro que reúne textos os mais diversos, A ilha deserta, Deleuze comenta a apropriação da vontade de potência pelos fracos e degeneração do seu sentido original. O título do texto é “Conclusões sobre a vontade de potência e o eterno retorno”. [Sobre a vontade de potência] Não se trata de um desejo de dominar, pois como, o que é dominante, poderia desejar dominar? Zaratustra diz:...
