A bondade significa a vontade de ceder e de doar poder; a maldade, a vontade de acumular e exercer despoticamente o poder, de prevalecer sobre os outros. Quem é bom é, ao mesmo tempo, dono do poder e não dono do poder, pois para dar e ceder poder é preciso transbordar, ter mais do que pode portar e carregar. Ou seja, só transborda quem sente que não é preciso acumular poder, quem pode ser mais que um mero portador do poder. Um poder sem portador se expressa como fluxo sem limites, um meio e não um fim; um meio para algo maior que um indivíduo, algo desconhecido, e não um meio a um fim, uma finalidade ou uma meta. A bondade é um canal de expressão e manifestação de um poder sem limites.
Por sua vez, quem age por maldade anseia sentir poder, pois secretamente se sente impotente, portanto, não tem condições de partilhar e dividir o poder, deve acumular e roubá-lo, se possível, para ter sempre mais que o outro e assim se proteger. O mal está sempre se protegendo do mal.
A bondade é a sensação de ser um com o mundo, de que estamos em todos os lugares — e em Todos. Quando nos sentimos assim, sentimos que o poder não é nosso, mas algo que flui pelo nosso corpo, em nosso sangue. E no sangue de todos os outros. Temos assim o sentimento de que o poder está em todo lugar, o poder é a graça. E a corrupção é a sensação de que só nós somos agraciados.


PS. A corrupção sempre começa com a ideia de que somos donos do poder. De gollum a Leane, na incrível série Servant, o poder começa quando sentimos que somos donos do poder, portadores do poder.
