Toda identidade define um lado de fora e assim se determina aquilo que não lhe pertence. Mas há muitas identidades, de tal sorte que não raras vezes pessoas postas em lados distintos segundo uma identidade mais adiante se reconciliam sobre o eixo de outra. Este pântano de abstração se ilumina com uma mais-que-oportuna consideração de Freud. Em O Mal-estar na Civilização, a hostilidade em relação...
Tolkien e a corrupção pelo poder
Naqueles que o detém, o poder provoca quase inevitavelmente uma espécie de degeneração, algo que se pode chamar de corrupção pelo poder. A expressão me parece auto-explicativa, mas ainda assim admite, como qualquer expressão da linguagem, um novo modo de ser ilustrada, uma nova apresentação. A variedade de expressões de um conceito muito geral, como é o caso no conceito de poder, às vezes...
A Ética da Autenticidade
Os franceses são muito formais, todo mundo sabe disso. Quando criança minha esposa foi viver em Paris e, embora tenha absorvido muita coisa dos franceses, não morre de amores pelos parisienses. Ela me conta como ainda se sente constrangida, sempre que precisa falar com franceses, a repetir o mantra que lhe foi inculcado: “Bonjour! Excusez-moi de vous déranger. S’il vous plaît...
Somos animais!
Somos animais, não há muito mais o que dizer. Somos macacos. Macacos metidos a besta, é verdade, mas ainda assim, macacos. Dentre as muitas coisas que se pode amar na internet está uma oferta quase inesgotável de conhecimento. Por exemplo, aqui você pode assistir sem dificuldades a uma playlist com 12 vídeos nos quais o paleontólogo Walter Neves explica um pouco sobre a macroevolução humana. Não...
Isso faz sentido pra você?
Há muitos modos de dizer e o mais importante numa comunicação é saber se o que foi dito tem sentido, se logramos dar sentido às palavras de tal modo que o outro possa entendê-las.
Mudar de pele
Mudar é um processo doloroso, mas a única lei do mundo é a lei da mudança (esse oxímoro imprescindível). Toda mudança nos coloca na rota do abandono da heteronomia, da aquisição da autonomia (e da liberdade)
Não ser capaz de imaginar o cinza
Na filosofia de Wittgenstein a ideia de que o mais geral não se deixa notar foi uma das minhas mais persistentes obsessões. Wittgenstein formula essa ideia de muitos modos semelhantes ao largo do seu pensamento pós Tractatus Logico-Philosophicus. O que é mais geral escapa a nossa percepção por sua generalidade, diz Wittgenstein. Não podemos ver o que está diante dos nossos olhos, escreve em outra...
Produção e divulgação: o caso de Oliver Sacks
Há séculos a distinção entre conceber ideias e divulgá-las se arrasta entre nós como um dogma. Não resta dúvida de que se trata de uma distinção extremamente útil. No entanto, o desenho de nossas instituições formativas/educativas tende a aumentar o abismo entre esses dois polos, a concepção e a apresentação de ideias. Há poucos dias li um artigo sobre o que se denominou Research debt, o déficit...
A margem entre o convencional e a loucura
Quando se encontram dois princípios que não podem ser reconciliados, seus partidários se declaram mutuamente loucos e hereges. — Wittgenstein, Sobre a certeza O convencional é uma árvore sólida e de longas raízes à margem do rio da loucura. Essa imagem tem algo de ilustrativo embora não seja mais do que isso, uma imagem. A convencionalidade visa a estabilidade e pra isso criamos regras e leis...
Ritmo e reflexão
O ritmo de uma sociedade condiciona a qualidade de sua reflexão. Nossa capacidade reflexiva não acompanha a velocidade de desenvolvimento dos processadores. Como o ritmo é cada vez mais alucinante, nos tornamos potencialmente menos capazes de produzir uma reflexão profunda. É claro que isso não quer dizer que não existam pessoas refletindo profundamente, mas apenas que nossa sociedade...