Escrevi esse texto em julho do ano passado, tava engavetado aqui junto a muitos outros.

A Folha de São Paulo nos conta quase diariamente que a taxa de aprovação de Lula está em níveis preocupantes, mesmo depois de termos passado 4 anos governados por Bolsonaro e Paulo Guedes. É pra encher o sujeito de desesperança! Aliás, o governo Lula tirou o Brasil do Mapa da fome. A melhor coisa que podemos aspirar, nesse cenário, é conquistar os corações e mentes de gente que até ainda há pouco tinha saudades da belíssima “gestão” Bolsonaro. Esse é o panorama de um realista, de quem olha o que parece possível na situação em que estamos hoje e tenta agir para criar a melhor situação futura possível (controle).
Se a estratégia funcionar, alguns brasileiros vão passar a apoiar o governo Lula, vão enxergar por um tempo indeterminado o que o governo tem feito. Ainda assim é desesperador ser realista. O melhor que nos pode acontecer de um ponto de vista estratégico é recuperar das mãos da extrema-direita a bandeira, a pátria e o patriota recentemente iludido pelo patriotismo de Eduardo Bolsonaro. “Grandes merda!”, diríamos na Bahia, com razão. É só isso que podemos aspirar? A arte não precisa ser realista, mas nós precisamos dos realistas, não nos resta outra.

500 Fora do Brasil todo mundo ama Lula, mas dentro do Brasil a imprensa diz que o governo tem um problema de comunicação
Quando se é realista, o que de melhor pode acontecer? Se 15% dos que fortalecem os índices de reprovação do governo Lula aderirem ao governo, talvez ele se reeleja, mas isso não muda o nosso Congresso, não muda a pressão da imprensa ante o mais mísero intento de afrontar a violência da injustiça tributária brasileira. Quase nada muda, e é como se a nossa única meta fosse evitar o pior!
Às vezes é difícil viver e constatar o quanto nossas palavras são insuficientes, e admitir que elas não são causas eficientes, por mais que acreditemos na razão, na lógica, na matemática. Ante essa constatação, é inevitavelmente pensar que para que o mundo mude muita gente precisa morrer. Ou seja, só depois que elas morrerem e deixarem de participar e interagir com o mundo algo vai mudar — claro, se e somente se, aqueles que nascerem forem criados em uma cultura diferente, uma cultura mais aberta às palavras ou às mudanças que precisamos.
E essa é a diferença entre realistas e utopistas, os realistas (os pragmáticos, os homens de ação, os realistas são uma classe heterogênea) estão no controle porque eles pensam em termos de estratégia e procuram garantir a estabilidade. Mas o mundo não é estável, e seu grande aliado é, na verdade, o medo da maioria. (Se vivemos numa cultura orientada à instabilidade o realista e o pragmático não teriam tanta força). O que o realista pode oferecer para quem pensa o mundo em termos de estratégia e em termos de criação de uma nova cultura? Os prognósticos são nada animadores, mesmo para quem acha que a China crescimentista deve ser “o novo paradigma do mundo”, por assim dizer. (A China não pode substituir culturalmente os EUA, mesmo que possa substituir economicamente, como fica então esse cálculo?)
A utopia não está interessada em cálculos, estratégias, e não poucas vezes o melhor da arte é ficção — não a verdade. Um novo possível não pode emergir de um mesmo quadro normativo, é preciso momentos de instabilidade. Ou dizendo de outra maneira: o impossível só pode acontecer na passagem de um quadro normativo a outro. Não podemos criar uma engenharia de um novo mundo, apenas uma ética, um modo de agir, e essa ética desse ser talhada pela imaginação, pela arte.
Somente imaginando um mundo diferente podemos inventar um novo mundo, não como quem reforma o antigo (coisa de realistas e pragmáticos), mas como quem constrói um novo a partir dos escombros do antigo.
