É parte fundamental do que eu chamo Metafísica Spock ou Mitologia Spock uma certa compreensão da lógica e da psicologia que se expressa claramente na frase “os homens são mais lógicos e as mulheres são mais emocionais”. Ou seja, uma oposição entre lógica e psicologia que mal disfarça a sua preferência pela lógica. Nessa compreensão está contido um forte anti-psicologismo que — vejam só que coincidência — é também uma perspectiva que desfavorece as mulheres. Porque se ser lógico é preferível, naturalmente, quem tende às emoções é preterível, secundário, dispensável, irrisório, irrelevante.
“Os homens são mais lógicos” é uma generalização, isto é, a proposição tenta alcançar o máximo grau de verdade, ela quer ser verdadeira em todos os casos, quer ser universal, não excluir ninguém. Mas como se constrói a justificativa dessa universalidade? Biologicamente, isto é, usando a Biologia? Mesmo que você consiga usar a biologia (ou qualquer outra ciência natural) para construir a verdade/justificação desse universal, qual é o estatuto dessa verdade? Não é uma verdade necessária, não? Não é tampouco uma verdade lógica, uma tautologia. É uma verdade empírica, histórica e contingente como todas as coisas sob o céu e terra. (Mesmo que a disciplina fosse a Física e não a Biologia, o estatuto dessa verdade não mudaria, continuaria sendo uma verdade empírica e não necessária.)
Para mim, uma maneira de tentar salvar algo de intuitivamente verdadeiro nessa ideia absurda, nessa misoginia mal disfarçada, talvez seja defendendo que “os homens são lógicos” tentar dizer atrapalhadamente que os homens são mais inclinados a acreditar cegamente na existência de regras e leis — e a acreditar na universalidade e na eternidade desses artefatos. Os homens tendem a ser puzzle-solvers. As mulheres são criadoras, sabem que o mundo nasce e morre a cada instante, e sabem que toda criação nasce como singularidade, diferença, dissenso, rebeldia, e finalmente loucura. Portanto, elas não podem acreditar ingenuamente em leis, como fazem os homens, pois elas sabem que as leis são construtos e também caem em desuso. Os homens buscam a ordem, creem nela ingenuamente, creem como soldados, sem questionar as ordens recebidas, como wars boys de Mad Max. A ingenuidade dos homens não tem nada de pejorativa, nada de indesejável, ela é demiúrgica e alimenta sua força vital — mas é preciso encará-la e admiti-la, isto é, ver também o que há de fraqueza nela.
E não há como transformar o mundo — promover uma instabilidade desejada e combater a indesejada que estamos atravessando — sem construir um altar ao que há de não-lógico e complemente anti-pluzzle-solver nas mulheres, sem ver no anti-Spock feminino aquilo que mais precisamos para abrir caminho pela instabilidade que temos fabricado (por meio da complexidade).
