Substituir o conceito de guerra cultural

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Talvez o maior indicativo da força hegemônica da cultura dos EUA seja polivalência do conceito de guerra. Tá aí uma palavra que está em todo lugar, que explica tudo: tudo é guerra. As chamadas “guerras culturais” são apenas mais uma ocasião para aplicar esse conceito e moldar a experiência humana como uma batalha entre seres humanos, no melhor estilo Thomas Hobbes, da guerra de todos contra todos ou do homo lopus homini. Onde quer que pousemos o nosso olhar veremos análises que situam a política segundo a perspectiva de guerras e batalhas — seja com o leninista Jones Manuel, seja com o gramsciano Pablo Iglesias. A esquerda comprou essa ideia.

A política é certamente conflito (agón), como não cansa de repetir Chantal Mouffe, mas não necessariamente guerra. Não precisa ser! Guerra envolve algum tipo de violência, física ou simbólica, o conflito não precisa chegar nisso. Na minha apropriação do conceito grego, o conflito é fundamentalmente simbólico e político. A política é o espaço onde ainda podemos tentar abrir mão da violência, construir saídas simbólicas para diferenças e dissensos aparentemente incontornáveis. Não é de surpreender que os esforços e as tentativas de esquivar a violência sejam sabotadas por aqueles que desejam saídas militares e bélicas. Mas é surpreendente que existam tantos apoiadores, especialmente à esquerda, do emprego universal do conceito de guerra.

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