Desenvolvimento Urbano?

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Orla da cidade de Santos, SP

Salvador está prestes a se tornar uma espécie de Santos, ou Rio de Janeiro — cidades cuja orla é inteiramente cercada por altos edifícios. A diferença, óbvia, é que por aqui não temos largas avenidas litorâneas, nem o suporte estrutural que antecede a faixa de areia. Nos últimos anos esforços têm sido feitos na tentativa de melhorar a estrutura física da orla, de torná-la mais atrativa. O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) vem para piorar esse cenário. O aumento do gabarito nos trechos de orla é uma afronta à história da cidade, a sua estrutura. O Plano caminha no sentido contrário do esperado — acirra ainda mais o já incandescente e inescrupuloso mercado imobiliário de Salvador.

Abre parêntese.

Há décadas o mercado imobiliário explora a geografia da cidade a despeito dos seus interesses, o endosso da família-mor baiana é mais do que suficiente para legitimar a construção em áreas estratégicas para o desenvolvimento urbano, limitando as vias de tráfego a passagens limitadíssimas, incapazes de escoar o fluxo que, naturalmente, o tempo se encarrega de aumentar. Mais de dois milhões de habitantes têm duas opções se quiserem vir do centro até algumas áreas residenciais da cidade (Pituba e todos os bairros que seguem no sentido de Itapuã): 1. A avenida Lucaia, congestionada pelo tráfego herdado do Iguatemi e Itaigara 2. O largo da Mariquita e região, que escoa os carros que vem da Ondina e Barra através da Rua Borges dos Reis, que em determinado trecho mal comporta dois carros simultaneamente e a rua Dr. Odilon Santos, que o faz com muito custo. Anos se passaram, governos idem, e nada mudou. Nenhum projeto de expansão foi realmente implementado — nem sequer estudado, pelo que eu saiba — e a cidade desse modo é impedida de crescer. Seus moradores, submetidos a um trânsito que só se explica pela superpopulação e desenvolvimento econômico de cidades como São Paulo, tornam-se reféns.

Fecha parêntese.

Assim, ao sabor dos interesses econômicos Salvador segue um rumo incerto, pelas linhas de um plano curiosamente nomeado diretor. Os defensores do caráter regulador das atividades econômicas argumentam que a iniciativa privada se encarregará de “embelezar” a orla se puder recolher em lucro o investimento aplicado. Ora, mas tudo que lá pode ser classificado como feio ou se situa no espaço público das praias e das calçadas, ou se deve a pobreza de alguns bairros. O que fará a iniciativa privada? Celebrará parcerias para custear obras públicas nos terrenos estreitos da orla — espaços reduzidos pelo avanço da exploração imobiliária que desde sempre forçou a natureza a se limitar ao mínimo — ou desapropriará os moradores pobres desses regiões (como feito no Pelourinho) em nome da beleza do litoral de Salvador?

Não se trata apenas de preservar a ventilação da cidade mediante observação de limites verticais razoáveis, mas de distribuir a beleza de todo plano litorâneo, de não torná-la patrimônio exclusivos dos ricos moradores da região, além de colher as benesses relativas a saúde que o aprisionamento dos ares marítmos poderá embotar. Continuo afinado com FHC na sua declaração de que o mercado cria lucros e não valores, enquanto não estivermos munidos de instrumentos verdadeiramente eficientes de controle da ação predatória do mercado não é sensato fechar os olhos para a sua insensibilidade.

Mais uma coisa precisa ser dita: vamos deixar de lado a tendência cega de buscar parâmetros em cidades estrangeiras. Que cidades, fora do Brasil, podem servir de modelo para as circunstâncias tão peculiares que temos por aqui: clima, disposição geográfica, patrimônio histórico e condições sociais costuradas numa única peça? É preciso criar iniciativas próprias para lidar com nossos problemas — e não adaptar modelos internacionais que não consideram aspectos que para nós são significativos.

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