A maioria dos homens heterossexuais desconhece uma distinção muito importante, a distinção entre gostar de mulher e gostar de transar com mulheres. E porque eles desconhecem essa distinção, eles respondem à pergunta: “Você gosta de mulher?”, como quem responde à pergunta “Você gosta de transar com mulheres?”. Se eles conhecessem essa distinção, e fossem honestos, responderiam realmente assim: “Não, não gostamos de mulheres, mas gostamos de transar com elas”.

<ficção>
Existe uma tecnologia capaz de criar androides hiper-realistas, como os androides de Ex Machina, androides construídos com robótica integrada a tecidos vivos e material biológico. Essa tecnologia é comercializada e adquiridas pelos Estados do mundo e fornecidas aos homens que se comprometessem a não ter relações com mulheres e não constituir família pelo resto da vida. É uma opção sem volta, e a violação das condições de participação tem efeitos penais, o sujeito pode ser preso. Os homens que optassem por não ter família receberiam a visita de uma androide uma vez por semana, e ela lhes ofereceria sexo por quanto tempo eles quisessem durante aquele dia. Essa androide seria uma cópia de qualquer mulher que eles desejassem, bastava selecionar uma foto ou imagem, qualquer uma (o sigilo da escolha é questão de Estado). Tipo, Scarlett Johansson em Under the Skin. E os homens poderia até mudar o modelo de acordo com seu desejo, desde que respeitassem a exigência de nunca se relacionar com mulheres reais. Se essa ficção fosse algo real, será que haveria muitos homens que ainda teriam relações com mulheres? Se as androides fossem praticamente indistinguíveis das mulheres, ou seja, se o Estado garantisse uma quota de sexo mínima pelo resto da sua vida, com os melhores exemplares dos tipos femininos, será que os homens ainda assim desejariam ter relações com mulheres reais? Será que esses homens desejariam ter filhos, ser pai? Outra questão perturbadora!</ficção>
Não. Eu acho que não haveria tantos homens dispostos a ter relações com mulheres reais, eles prefeririam as androides, que são buracos mais convenientes. Seria o tipo de contexto distópico que revelaria a decadência dos modelos do masculino que aparecem como os principais no mercado simbólico do capitalismo cultural. Não há neles nada de grandioso e valioso. Os homens ainda veem as mulheres como inferiores, pouco inteligentes, símbolo de fraqueza indesejada, veem no feminino um sem número de predicados indesejados, e nada os ofende mais do que ser afeminado de qualquer modo, porque o que está em jogo nesse caso é a própria reputação de homem, macho, viril, potente, ativo. Diante da ameaça de parecer fraco, inofensivo, indefeso, frágil, incapaz, pouco inteligente, passivo, os homens insistem que precisam ser guerreiros, bravos, destemidos, capazes de provocar medo e respeito em qualquer pessoa. A incapacidade de ver o feminino como fonte de predicados que podem ser importantes para os homens determina a decadência dos modelos de masculino que circulam por aí, divulgados principalmente pela extrema direita, por Jordan Peterson (de quem eu gosto, BTW), Russel Brand (Felipe Mello?), Andrew Tate, [insira aqui seu influencer de masculinidade favorito], pela galera que anda vendendo modelos (influenciando) na internet.
E o que eu digo é: uma coisa é gostar de mulher, outra coisa é gostar de transar com mulheres, e as duas coisas poucas vezes andam juntas. Quando a gente gosta de mulher, a gente quer estar perto delas, gosta das coisas que elas dizem e fazem; a gente respeita e ama o que elas fazem, o produto de suas mãos, de sua cabeças — suas obras e crias. E se torna inevitável cair naquilo que Caetano e Gil cantam em Super homem, em um certo tornar-se também mulher, de tal sorte que as melhores porções de nós homens sejam também mulher. É isso que significa gostar de mulher, não sentir de nenhuma maneira ameaçado pela identidade com o feminino, ou preocupado em manter-se inequivocamente ligado a símbolos masculinos — muito menos ameaçado na sua sexualidade. O homem que sente que a identidade com o feminino vai fazê-lo gostar de homem (virar viado) manifesta em realidade insegurança sobre seu próprio desejo, medo de olhar pra ele e descobrir algo que não quer (ver).
Os homens em geral ainda me parecem como os pederastas gregos descrito por Foucault, apaixonados por tudo que diz respeito ao universo masculino, que vem as mulheres como cidadãs de segunda classe, relegadas ao mero papel de reprodutoras e cuidadoras. O importante mesmo são os outros homens, as mulheres são só pra foder (como na misoginia brilhantemente representada em Ex Machina). Eu contei sobre algo bem ilustrativo disso tudo num texto chamado Misoginia e pederastia. O Bromance descreve muito bem grande parte da experiência emocional desses homens, que não sabem ser amigos de mulheres. É fundamental ensinar os homens a gostar das mulheres, a amar em geral, a saber amar, e a amar as mulheres em particular. Lição muito bem ministrada por bell hooks em seus livros. Mais do que nunca, precisamos de homens que gostem de mulher, e não apenas de fodê-las.
Há alguns meses eu escrevi que um masculino envergonhado não servia às mulheres, pois sempre haverá homens orgulhosos do seu gênero, a despeito de tudo. Recentemente eu vi um vídeo de um sujeito dando entrevista no Dailyshow, fazendo uma análise rápida da eleição recente nos EUA, a que deu a vitória a Donald Trump. Ele dizia muito acertadamente que os democratas fazia parecer como se qualquer aceno aos homens fosse falta de compromisso com as lutas femininas, e ele tem razão. Se o impacto é gigantesco nesse mundo estreito onde política é mera estratégia publicitária, imagine então o impacto disso na cultura e na Política, com p maiúsculo.