A violência virá

Conrado Hübner Mendes, no Twitter e na sua coluna Manifesto alarmista:

O alarmismo é a única posição eticamente possível, intelectualmente honesta, pragmaticamente prudente (…) Nada é mais arriscado que o compasso de espera, como se o jogo fosse o mesmo de antes, nos termos de antes.

Karina Buhr no Twitter:

Vamos falar a verdade: as pessoas estão morrendo como moscas e nós temos no horizonte uma ditadura ou, no mínimo, uma guerra civil. Cada um acredita no que quiser, mas será que alguém ainda acredita que nós temos instituições capazes de barrar um golpe em 2022? (Se é que o golpe é necessário, como bem lembra Conrado) As instituições foram pro espaço com o golpe parlamentar, resultado da Lava Jato, só resta o circo da encenação da norma. — E o que isso quer dizer?

Quer dizer que a violência virá, sí o sí, como dizem os espanhóis. Ele só não dará um golpe, se ganhar. Muito provavelmente as pessoas dirão que é irresponsável desacreditar as instituições nesse momento, que não convém ser imprudente e não antecipar as coisas. É verdade, a prudência é necessária, mas em todos os momentos? O que é fato e o que é wishful thinking? Como decidir o que fazer sem saber o que é o caso?

Na verdade, dizer que “a violência virá” é maquiar a realidade, porque as quase 260 mil mortes são uma violência brutal. Essas pessoas têm nome, não são apenas dados para estatísticas. Suas mortes são uma violência política cotidiana, não é como a violência natural da morte pelo covid19 na Itália ou na Espanha. Parte, senão a totalidade dessas mortes é resultado de um projeto político bem atual, cujo núcleo reside no Palácio da Alvorada.

Não acho conveniente incitar a violência, mas também não acho certo ignorá-la quando ela está na sala de jantar. O que devemos fazer a esse respeito é uma outra questão, mas o fato é que a violência já está aqui e ela ainda virá. A outra parte, o outro lado, eles estão perfeitamente à vontade com a violência, eles a desejam. Somos nós que não estamos à vontade com ela. A violência é quase sempre evitável quando está longe da nossa esquina, mas ela já esteve alguma vez longe da nossa vista? Não sou ativista, nem militante, a urgência para mim é do pensamento e não da ação. A ação também é urgente, não há como negar, mas se nós estamos analisando friamente o fato não temos razões para acreditar que podemos escapar da violência, de um modo ou de outro, convém constatar que a única coisa que sabemos é que temos mais inteligência que eles. E talvez seja o caso de pensar em como usá-la a nosso favor, antecipar as ações, e não apenas esperar para constatar que as instituições já não tem forças. Um primeiro passo é certamente a violência simbólica, ou a violência institucional. Mas esse é um tema sobre o que pensar, urgentemente, hoje e pelos próximos dois anos.


Quem não entende contradições está mal adestrado. O nosso adestramento habitual, ligado à lógica e a bipolaridade das proposições da linguagem natural, supõe que não podemos entender uma contradição. Uma contradição pode dizer algo sobre o mundo (não algo verdadeiro, naturalmente, mas isso é o de menos), ela carregar sentido e pode ser entendida. Isso devido ao primado do sentido sobre a verdade, que, entre outras coisas, nos liberta da escravidão da bipolaridade proposicional. E até a consistência pode ser derrogada em certas situações e pensamentos, como nos ensina a lógica paraconsistente.


Os dois textos têm com o meu uma relação meramente racional, e não causal.

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